Outro dia eu tava apagando uns vídeos do computador pra liberar memória, e parei numas gravações de reunião. Dessas de Zoom que a gente faz toda semana. E reparei numa coisa que depois não consegui mais desver: ninguém tava sorrindo. Cara fechada, sobrancelha travada, todo mundo parecendo meio bolado com alguma coisa.
Aí comecei a prestar atenção nas reuniões seguintes. Era sempre assim. As pessoas fazendo as coisas, mas parecendo que faziam por obrigação. Não é tristeza. É uma falta de leveza. E aquilo ficou na minha cabeça.
Parte é a tela. Parte é real.
Pensei bastante e cheguei em duas coisas acontecendo ao mesmo tempo. A primeira é a tela. Reunião no Zoom rouba o sorriso. Você fica se vendo o tempo todo naquele quadradinho, perde o olho no olho, perde o tempo da conversa, e o rosto do outro chega achatado, sem aqueles mil sinais pequenos que a gente lê quando está perto. Aí um rosto só concentrado já vira "cara de bolado" na nossa cabeça, mesmo quando a pessoa não está. Isso até tem nome, fadiga de Zoom. Boa parte do que eu via era a tela tirando o sorriso de quem sorriria pessoalmente.
A segunda parte é real. As pessoas estão carregando mais e sorrindo menos. Não é invenção da minha cabeça.
Eu só reparei porque o sorriso ainda é a minha água
E aí veio a parte que me incomodou de verdade. Se eu reparei na falta, é porque o sorriso ainda é a minha água. A gente só estranha a ausência do que ainda tem dentro. O peixe não vê a água em que nada. Eu vejo a falta dela. Quem já secou por dentro nem nota.
Daí veio a pergunta que não me larga. E eu? Será que eu tenho sorrido? Quando eu apareço na frente das pessoas, eu somo ou eu subtraio?
O sorriso é a comunicação mais honesta que existe
Eu trabalho com comunicação. E parando pra pensar, o sorriso é a comunicação na forma mais limpa que existe. Um sinal de boa vontade que não custa quase nada e vale muito. O Dale Carnegie tem uma página inteira sobre isso no Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas. Ele conta de uma loja em Nova York que, no aperto do Natal, pediu aos clientes:
Se alguns dos nossos vendedores estiverem cansados demais pra sorrir, será que você empresta um dos seus? Pois ninguém precisa tanto de um sorriso quanto quem não tem mais nenhum pra dar.
— Dale Carnegie
O que mais me pegou nessa ideia: o sorriso não pode ser comprado, nem pedido, nem roubado. Ele só passa a existir quando alguém dá. E tem outra coisa. Ele é dos poucos sinais que não dá pra fingir de verdade. O sorriso que chega nos olhos não obedece à vontade, ele vem ou não vem. O sorriso colado por educação todo mundo sente que é colado. Ou seja, o sorriso é honesto pelo mesmo motivo que confiança se constrói com o tempo. Ele entrega quem você é antes de você abrir a boca.
A gota no oceano
Tem uma frase da Madre Teresa que eu carrego comigo:
O que eu faço é só uma gota no oceano. Mas sem ela, o oceano seria menor.
— Madre Teresa
A gente é uma gota nesse mar de gente. E eu fico pensando quantas vezes a minha gota, em vez de somar, subtraiu. Porque dá pra fazer as duas coisas. Dá pra aparecer e deixar o ambiente mais pesado, ou aparecer e deixar mais leve. Se aparecer é uma responsabilidade, e eu acredito que é, então o jeito como eu apareço também é. Não basta estar presente. Tem gente que está presente e só pesa.
Cuidado com o sorriso de obrigação
Agora preciso ser honesto, porque tem um perigo aqui. Se "sorrir mais" virar obrigação, a gente vira justamente aquilo que estranhou nos outros: a cara montada, o sorriso de dever. Esse não soma. O sorriso que soma não é o que você cola no rosto pra ser visto somando. É o que sobra quando você está num estado que deixa ele vir sozinho. O trabalho não é no rosto. É atrás dele.
Só que aqui tem uma volta bonita. O gesto também puxa o estado. Existe estudo disso, a ciência chama de feedback facial: sorrir, mesmo meio decidido, já dispara parte da química boa, endorfina, serotonina, dopamina, ocitocina, e ainda baixa o cortisol, o hormônio do estresse. E o Salomão já escrevia, lá nos Provérbios, que aquilo que a gente cultiva por dentro vira aquilo que a gente vive por fora. Quer dizer, não é fingir. É começar pelo gesto pra destravar o que estava preso.
Sorria
Então fica aqui menos como conselho e mais como uma coisa que eu falo pra mim primeiro. Eu não sei o que você está passando. Tem dia que pra mim também parece que é noite no meio da tarde. Mas sorri. É de graça, ninguém tira de você, e pode ser a virada do dia de alguém que cruzou com você sem você nem perceber.
Se o mundo anda de cara fechada, talvez a gente comece a virar isso de um jeito simples. Sendo a gota que soma. Sorrindo primeiro.